terça-feira, 24 de maio de 2011

Sem Passado...

Tentei abrir os olhos. Não conseguia. Sentia o cheiro de carne humana queimada. Ouvia os gritos desesperados à minha volta. Senti o alcatrão quente com as minhas mãos. Na minha boca havia um travo de sabor a sangue. Mas ver, ver não conseguia. Talvez fosse falta de coragem. Talvez não queria acreditar que ao abrir os olhos o pesadelo ia continuar. (Talvez cobardia.) Não. Era apenas medo.
Medo de um futuro sem pais, sem país, sem casa, sem amor ou comida. Sem nada. Apenas à espera que alguém pegasse em mim ao colo e me abraça-se.
Tenho 6 anos, chamo-me Luna e não sei onde estou.
Ainda seguro a mão da minha mãe. Uma mão fria e sem vida. Uma mão de alguém que já não me pode ajudar.
Quero chorar, mas não consigo. Quero ajuda, mas não quero gritar como os outros.
Alguém me toca. Começo a gritar. A gritar sem parar. Abro os olhos. Se aquilo não for o inferno não sei o que será. Aquilo não pode ser a minha cidade. O que fizeram a ela.
Foi quando um soldado me estendeu a mão e levou-me para dentro do helicóptero. Agora daqui de cima vejo que não sobrou. O meu passado acabou. Não sei o que será depois de tudo isto...

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